Um suspiro de liberdade

“A situação na China tá complicada” comentou um coworking em meados de fevereiro em uma conversa informal na cafeteria. Eu que sou super desligada das notícias não sabia do que ele estava falando e não dei importância. Outra coworking que trabalha direto com o mercado chinês comentou uns dias depois que um evento importante havia sido cancelado por causa do Coronavírus. Hora de ir para internet. Ok, agora ao menos eu sabia do que as pessoas estavam falando, mas não dei muita importância, parecia algo tão longe da minha realidade e nem tão grave assim.

Foi quando meu chefe numa reunião comentou que para a sua surpresa havia chegado a hora de discutir medidas para a prevenção do Coronavírus na nossa empresa. Isso me deu um click, opa, não é brincadeira. Uns dias depois, tivemos um caso positivo em nosso espaço de coworking. Imediatamente preparamos um comunicado para todos os membros e no dia seguinte, nosso espaço de 1600 m2, que circulavam ao redor de 200 pessoas por dia, estava vazio. A sensação era de medo e insegurança.

O número de pessoas contagiadas e mortes na China e Itália não paravam de subir, e a Espanha onde eu vivo, vinha crescendo exponencialmente em terceiro lugar. As pessoas só falavam sobre isso, o tema dos grupos de whatsapp era somente sobre o Covid-19. A recomendação era trabalhar desde casa, lavar sempre as mãos, manter uma distância social de 1,5m entre as pessoas e usar máscara. Mas isso parecia até um pouco ridículo. Manter uma distância de 1,5m? Usar máscara? Enfim…

De última hora cancelaram as Fallas, o maior evento da cidade de Valência, porque até então estavam realizando as mascletàs na Plaza del Ayuntamiento desde o dia 1 de março, montando os ninots, enfeitando a cidade com luzes, trabalhando nas barracas de churros, etc. E meu irmão estava vindo me visitar justamente para participar deste evento tão único. Vale a pena ele vir? E foi aí que bateu a tristeza e o medo. Essa m**** é séria! Após essa notícia iniciou-se o estado de alerta. Acho que foram os dias mais difíceis, especialmente quando eu e meu irmão não sabíamos se ele conseguiria voltar para a França. Cogitamos a possibilidade dele ficar comigo na Espanha, ou aproveitar o que estava por vir e ir pro Brasil. Difícil situação, difíceis decisões, menos mal enfrentamos juntos. Isso era metade de março. Paciência, calma e esperança.

Até então eu achei que já tinha tido Coronavírus umas tres vezes. É incrível como somos influenciados pela mídia e como nosso corpo pode adoecer com a força do pensamento. Ainda não sei se tive ou não, mas início de março peguei um resfriado, fiquei uns dias sem voz e o mês inteiro com tosse seca. Mas nao tive febre e nem dificuldade para respirar. E se sou assintomática? Só estavam fazendo o teste em pessoas com sintomas mais graves.

Começou a faltar papel higiênico nos mercados, as pessoas começam a fazer estoque de comida com medo de passar fome. Parecia uma guerra, um filme. Começaram os memes, os vídeos das pessoas entediadas (e criativas) em casa. As ruas estavam vazias, só se viam os carros da polícia, algumas pessoas passeando com os cachorros e outras indo em direção ao mercado, farmácia ou hospital.  Alguns músicos se animavam e cantavam nas sacadas para os seus vizinhos. Todos os dias era possível escutar o canto dos pássaros, o ar estava mais puro e eles mais felizes. Todos os dias era possível escutar a sirene da polícia, ambulância ou bombeiro. Todos os dias era possível escutar os aplausos às 20h em homenagem aos profissionais da saúde. Todos os dias.

O mais bonito dessa fase na minha opinião é a colaboração das pessoas e empresas. Começaram as aulas de yoga e fitness grátis pelo live do IG, webinars e conferências de diferentes temas também grátis, grupos de apoio psicológico. 

As pessoas começaram a cozinhar mais e a trocar receitas, surgiram desafios por redes sociais para motivar uns aos outros a se manterem ativos. Teve criação de jogos como quiz e/ou dinamicas, encontros por Zoom entre amigos com bebida ou sem. Houve mais compartilhamento e recomendação de filmes e livros, tudo era bem vindo. Estávamos abertos para provar coisas novas, manter a mente e o corpo ocupados, fazer coisas que há tempo queríamos fazer e nunca tínhamos tempo. Meditamos. Quem diria? Meditamos! Falamos mais com nossas família e amigos, e não é só uma conversa rápida “Tudo bem? Sim, tudo bem. O trabalho segue ok? Sim, ok. E o tempo como está?” É algo com mais valor e profundidade.

Não podemos planejar viagens então a única forma de viajar é relembrando as vivências, deixamos a mente vagar, olhamos fotos antigas. As memórias da infância voltam com uma frescura que dá vontade de abraçá-las. Pensamos onde realmente gostaríamos de estar neste momento e com quem. Porque não se pode viajar, não se pode sair da cidade, não se pode sair de casa. Mas se pode ser criativo, positivo, forte.

Começam as compras online, porque precisamos esperar chegar algo, algo novo que façam nossos dias diferentes, porque segunda-feira, quarta-feira, sábado ou domingo são iguais. Porque você não precisa de uma roupa nova, mas quer poder ao menos variar a blusa, ou mudar o cheiro do creme do corpo. Vivemos altos e baixos. Tem dias que nossa energia está a 100%, fazermos esporte pela manhã, trabalhamos remoto, cozinhamos algo delicioso, arrumamos a casa, trabalhamos um pouco mais, lemos um livro, preparamos a janta, olhamos um filme e meditamos antes de dormir. Mas tem dias mais difíceis e tristes, porque estamos longe da nossa família e não sabemos quando vamos poder vê los novamente. Nesses dias dá vontade de gritar: “Quando isso vai acabar? Quando vamos voltar a ter nossa vida normal?” Mas não podemos nos enganar, vamos voltar para uma NOVA normalidade, não será como antes, ao menos por um bom tempo. Difícil aceitar essa realidade, mas dizem que a humanidade precisava parar, olhar para dentro, ressignificar.

Então como uma luz no fim do túnel, nos últimos dias de abril, você recebe a notícia de que o governo criou umas regras para as pessoas voltarem à nova normalidade de forma escalonada. E essa notícia encheu os meus olhos de lágrimas. Em horários determinados será possível caminhar pela rua, fazer exercícios no parque. Alguns locais vão poder reabrir, como restaurante para delivery, centros de saúde e beleza. E a primeira caminhada é como um suspiro de liberdade. Existe vida! A caminhada do 2 de maio, de um dia de sol na primavera me trouxe esperança e memórias de um verão que se aproxima. 

Agora além de seguir mantendo a paciência, a calma, e a esperança, o próximo passo é ir perdendo o medo, porém com muita responsabilidade. Quem imaginaria uma pandemia em 2020...


Paciencia, calma y Esperanza
Fallas 2020 - Plaza del Ayuntamiento de Valencia


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